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As tipologias da santidade
segundo o lecionário dos santos.
Para suprirmos a exposição insuficiente
ao se apresentar a mensagem dos santos, sem uma referência precisa
às leituras bíblicas, as quais podem ser proclamadas nas
festas ou nas memórias celebradas particularmente, resumimos alguns
pontos de reflexão que permitem enquadrar cada personagem hagiográfico,
analisado através das fontes eucológicas.
1. Mártires
Do grego
testemunha, a palavra mártir designava o cristão que sofria
até a morte pela sua fé.
Mas o martírio nunca é apresentado como fato de crônica
heróica ou épica, nem só como exemplo de coragem ou
de fé, mas como sinal do plano de Deus que passa através do
sofrimento: antes, os justos perseguidos do Antigo Testamento; depois, o
Messias, o Servo de Deus, atingido pelo sofrimento. Em 177, no anfiteatro
de Lião, 48 cristãos foram martirizados. Entre eles estavam
Potino, o primeiro Bispo de Lião, e Blandina. Eles são considerados
os primeiros mártires da Gália. Jó revela que o amor
de Deus é diferente do nosso, porque permite a perseguição
dos inocentes; Estêvão revela que a fecundidade do martírio
não consiste na morte violenta em si mesma, mas na participação
total na caridade de Cristo (efeito do seguimento de Cristo, Jo 12,24-26).
A perseguição faz parte da missão do povo de Deus,
como sinal de sua verdade e como condição de sua eficácia.
Também as tribulações e provas da vida são uma
extensão do martírio, como sinal da participação
no mistério pascal de Cristo, com tríplice certeza, a saber,
que depois da cruz vem a vitória da ressurreição, que
os homens não são capazes de tirar de nós a verdadeira
vida e que Cristo deve ser amado acima de todas as coisas, mesmo ao custo
da própria vida.
2. Pastores
O serviço
pastoral é escolha gratuita de Deus, porque só Deus é
o guia de seu povo à salvação (é ele o único
Pastor). Os pastores humanos não o são por delegação,
mas por um mistério de participação na atividade
pastoral de Deus e de Cristo para o bem dos seres humanos (cf. Ez 34,11-16;
Jo 10,11-16). A diaconia do serviço pastoral realiza visivelmente
o senhorio de Cristo (Mt 28,16-20), enquanto Deus determina o âmbito,
o fim e a eficácia da missão confiada aos homens enviados
por ele. O apóstolo é totalmente subordinado ao evangelho
(2Cor 4,1-7) e à palavra de Deus (At 20,17-36). Por isso as modalidades
do exercício pastoral são resumidas nestas três: a
natureza comunitária desse ministério, que se articula em
diversidade de ministérios e carismas, com a participação
de toda a comunidade; a plantatio ecclesiae ("plantação
da Igreja", cf. discurso missionário de Lc 10,1-24), que exige
pobreza, liberdade, desinteresse e humildade; e a conexão entre
o serviço terreno e a participação no senhorio escatológico
(Lc 22,24-30; Ex 32,7-14).
3. Doutores
A exaltação
da sabedoria dos doutores nasceu, antes de tudo, da inculturação
da revelação hebraica pela Sabedoria divina, introduzindo
a experiência do ser humano na revelação. A reflexão
sapiencial chegou à pobreza de espírito, segundo a qual
essa sabedoria humana vem de Deus e não do homem; por isso ela
é um dom a ser acolhido. Na revelação evangélica,
a sabedoria não é uma ciência teórica ou filosófica,
mas a capacidade de transformar a vida por meio das obras (Mt 5,13-19;
Lc 6,43-45). À luz do mistério pascal, a sabedoria é
a compreensão do valor salvífico da cruz (1cor 1,17-19).
4. Virgens
A exaltação
da virgindade cristã não é depreciação
da sexualidade humana nem expressão de perfeição
pessoal, mas manifestação simbólica do valor decisivo
ou resolutivo da dedicação da Igreja como esposa ao Senhor
seu esposo. A pessoa virgem está livre de qualquer outro amor porque
é esposa de Cristo (cf. Os 2,14-20; 2Cor 10,17-11,2; Ap 21,1-5).
Enfim, a virgindade em chave escatológica (1cor 7,29) é
necessária para descobrir a relatividade de todas as coisas diante
do amor de Cristo (Mt 19,3-12).
5. Santos
e Santas
Antes
de tudo, a santidade é apresentada pelos textos bíblicos
na dimensão trinitária, como fruto do amor do Pai e do Filho
pela ação do Espírito Santo, que habita em nós.
Em seguida, ela é comunhão vital com a santidade de Cristo
(cf. alegoria dos ramos enxertados na videira, Jo 15,1-8): ser santo significa
ser cheio da plenitude de Deus (Ef 3,14-19). Enfim, a santidade é
a perfeição da caridade divina (Jo 15,9-17) e se traduz
em obras de misericórdia para com os humildes, prediletos de Cristo
(Mt 25,31-46), exigindo uma radicalidade de empenho que leva ao espírito
de infância (Mc 9,33-36).
Fonte: Os Santos do Calendário Romano de Enzo Lodi - Paulus.
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